Vade Retro

Esquece teus valores, esquece tuas fraquezas. Eu não tenho medo de ti, então me devora... ou Vade Retro.

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Eu sou a peça que faltava no seu quebra-cabeça

Friday, December 14, 2007

Piano

Marieta descia as escadas sem entender.
- Quem é você?
Sem que obtivesse qualquer resposta caminhou em direção ao piano. Ele tocava freneticamente, como se aquela música que fazia fosse sua única fonte de sobrevivência.
Ainda sem entender, Marieta fechou os olhos e aos poucos começou a se mexer. Só pensava em bailar e ele só sabia tocar.
- O que se faz quando se arrepende do que faz?
Ele continuava a tocar.
- E quando não se quer voltar atrás?
A música se tornava mais frenética.
- O que se faz? O que se faz?
Ela não conseguia sorrir. Nem cantar.
- Eu não quero fazer nada, posso?
A melodia lhe respondeu e, então, seu corpo voou para o infinito, viajando até a hora de dormir. Não iria voltar atrás.

Sunday, September 17, 2006

Conto da passagem

Foi então que eu me apaixonei. Com a rapidez com que o vento atravessa um coração. E ela estava ali, do meu lado. Linda. Tentando estudar, desconcentrada, mexendo no cabelo. Tentei imaginar como seria sua voz, seu gosto. Doce, provavelmente. Seu corpo, inquieto, contrastava com o olhar poético. E eu estava mesmo apaixonado, nas nuvens.
E ela brincava com os dedos, e mexia a cabeça de um lado para o outro e, às vezes, dava um sorrisinho. Bastante pensativa. Talvez estivesse lembrando-se de uma noite, de um sonho ou até, quem sabe, pensando em poesia.
Em pouco tempo, começou a chorar. E eu não compreendi. Continuei a observar as lágrimas e a ver um mar onde ela via enchente. Afogados em águas distintas, estávamos separados. Ela ainda estava do meu lado. Eu ainda estava apaixonado.
Nas horas seguintes, não fiz mais que admirá-la. Parecia-me de outro mundo, ela não era para mim. Mas linda, isso era. E eu a admiraria para sempre.
Tirou os sapatos e soltou o cabelo, parecia querer liberdade. Estava quente, ficou pálida. Pressão baixa. Precisava de sal, mas a doçura de sua pele a impedia de melhorar. Branca, séria, passando mal. Senti vontade de dizer: “te amo mesmo assim”. Não disse, eu apenas olhava. Chegou socorro, ela tomou remédio, melhorou.
Logo, ficou entediada. Com sono talvez. Levantou-se e, ao passar da porta, não a vi mais. Ela era tão linda e eu a amava.
No dia seguinte, acordei com o pescoço doendo. É a conseqüência de passar o dia olhando para o lado. Eu estava com raiva, não a amava mais.

Monday, August 28, 2006

Parafina

Eu presto atenção
Eu paro
Inspiro, expiro
Eu piro.

Palavras sufocadas,
Eu não quero.
Palavras repetidas,
Desprezo.

Tudo isto,
A eterna briga,
Antônimos,
Mal... bem?
Me desagrada,
A ti também...

Estou doente
A procura do amor.
Por ti, apenas ódio,
Você também não me ama.
Errantes,
Eternos inimigos,
Ficar sozinha (?),
Eu (te) preciso.

Monday, July 17, 2006

Viagem

A leitura edulcora o mundo,
Torna-o mais bonito, mais questionável, mais profundo.
Nos leva a uma nova realidade,
Lugares mágicos, feéricos, a mentira que é verdade.

A emoção transbordada do autor,
Pode-se transformar no sentimento do leitor.
Palavras adocicadas: suspiro de amor,
Tristeza e decepção o remetem à dor.

Porém essa beleza exacerbada
Não pode ser por todos admirada.
É um universo restrito à minoria,
Pois o devido valor não é dado à sabedoria.

Não basta

Basta de flores!
Abriu-se os olhos
Nas feridas,
As dores
Perfume ilusório.

Basta de tangos,
A triste música nos basta
Dança-se nas espreitas de um barco
Morre-se nas águas do asfalto.

Basta de beijos
Foi embora o amor
Perdeu-se o desejo
Surgiu o rancor

Basta sofrer
E morrer para aliviar
Com o ferir, o doer.
Fugir e não cessar.

Bastei-me de mentiras
Perdi tudo que tinha
Morri de amores não vividos
Amei os sonhos feridos.

Mas basta olhar de novo
Sem os olhos da maldade
Basta mostrar ao povo
O que há além da vaidade.

Sunday, July 16, 2006

Conto do casamento

E como se fosse rotina, caminhou. E olhando para os lados, percebeu. Aquele não era seu lugar. Piscou os olhos ao tentar esconder as lágrimas, pressionou os lábios para sufocar o grito. Não deveria ser assim...
Em princípio, era o sonho, aquilo que sempre quis. Planejou-o desde sempre e contou os dias para o evento. Amou incondicionalmente e entregou-se por completo. Vivia entre beijos, carícias, gemidos. Aquele fogo que chegava a doer deixava-a louca. E Madeleine gostava de sentir-se assim.
Em um momento pisou em falso, não estava acostumada com o salto. E, pela primeira vez, o coração pareceu responder, disparou. Arriscou olhar para a direita, um flash a cegou a vista. Só então percebeu ser o centro dos olhares. Passara toda a vida evitando chamar a atenção. Nada de apresentar trabalhos ou arriscar-se em karaokês, preferia ser a expectadora, aquela em que ninguém reparava. Era feliz dessa forma, ou, pelo menos, pensava ser. Pelas amigas, era sempre eleita a “confidente”, por seu jeito quieto e sua discrição impecável; os pais orgulhavam-se da filha que terminou o colegial com notas brilhantes e que, diferente dos irmãos, nunca se meteu em qualquer confusão. Ela nunca havia decepcionado ninguém. Isso até agora.
Começou a reparar na respiração. Não estava ofegante como na véspera, pelo contrário, seu corpo parecia relaxar-se. Dava um passo, outro; porém não sorria. Seu olhar de faquir passou a incomodar os convidados. O tapete vermelho começou a acabar e, antes que pensasse nele, o viu. Parecia nervoso, porém piscou-lhe. Madeleine não tinha dúvidas de que Marcelo era seu grande amor. Sentia-se completa em sua companhia, gostava de sentar em seu colo e rir e beijar e explodir. Amava quando ele mexia em seu cabelo e chamava-a de princesa. Ele era seu príncipe, sua vida, sua razão e o coração. Alta entropia nos pensamentos da noiva. Nos passos finais, pensava nos dois anos de namoro e um de noivado. Havia sido bom, Madeleine sempre quisera casar-se, mas, de repente, enxergou o futuro como um grande tédio. Amor, marido, filhos, família. Tédio. Ela só tinha vinte e poucos e nenhuma experiência de vida. Três namoros sérios e, agora, um casamento. Um curso superior e nenhum emprego. Pronúncia perfeita no inglês e sua lua-de-mel seria no Nordeste. Na prateleira, cinqüenta livros de aventura e uma vidinha padrão. Madeleine quis mais.
Na hora H, olhos nos olhos, sorriso morno. Adeus. Marcelo a amaria para sempre, e como. Mas a noiva não estava presente em alma. Adeus. Marcelo precisava dela, mas... Adeus. As flores foram ao chão. Baque para todos, o inesperado aconteceu. Mais centro das atenções que isso, impossível. Madeleine era a vergonha da família, a decepção dos amigos, a tristeza do noivo. Ela disse adeus, sorriu e sentiu-se bem. Encontrou a verdadeira felicidade e ignorou a sociedade. Fugiu do combinado para iniciar uma vida. Trocou a princesa pela bruxa e ignorou os conselhos da fada-madrinha. Saiu do altar com tal velocidade que parecia estar voando em uma vassoura, tropeçou no salto e largou o sapatinho. Mas este nunca mais lhe serviria, pois os pés haviam inchado.Descalça, com o penteado desmoronando-se, foi para a rua. Não olhou para trás, o que havia deixado não lhe seria mais importante. Continuava a amar Marcelo e se alimentaria de lembranças, não queria estragar tudo. Pegou um táxi, seu destino era contra o vento. Só queria ir além, surpreender. Conseguiu. Nunca mais viu a família, os antigos amigos, porém continuou amando-os com a mesma intensidade. Percebeu que há inúmeras formas de amar e de reagir ao amor, mas que seu principal sentimento deveria ser por si própria. A vida era linda e a liberdade, o único caminho.

Amo

Eu revelo amor
Sem desvelar.
Tão rápido,
Imperceptível.

Eu tenho amor,
Tenho amor.

Tenho, tenho mesmo,
Mas o guardo para não doer
E dói tão forte
Sem ninguém perceber.

Sim, eu tenho amor!
E quero amar
Como me amam
Mas sou dura
Insólita
Indócil
Sem ternura.

Não, eu não sou assim,
Tão fria e
Tão morta.
Eu vivo,
Eu sinto,
Eu amo,
Eu choro.