Vade Retro

Esquece teus valores, esquece tuas fraquezas. Eu não tenho medo de ti, então me devora... ou Vade Retro.

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Eu sou a peça que faltava no seu quebra-cabeça

Monday, July 17, 2006

Viagem

A leitura edulcora o mundo,
Torna-o mais bonito, mais questionável, mais profundo.
Nos leva a uma nova realidade,
Lugares mágicos, feéricos, a mentira que é verdade.

A emoção transbordada do autor,
Pode-se transformar no sentimento do leitor.
Palavras adocicadas: suspiro de amor,
Tristeza e decepção o remetem à dor.

Porém essa beleza exacerbada
Não pode ser por todos admirada.
É um universo restrito à minoria,
Pois o devido valor não é dado à sabedoria.

Não basta

Basta de flores!
Abriu-se os olhos
Nas feridas,
As dores
Perfume ilusório.

Basta de tangos,
A triste música nos basta
Dança-se nas espreitas de um barco
Morre-se nas águas do asfalto.

Basta de beijos
Foi embora o amor
Perdeu-se o desejo
Surgiu o rancor

Basta sofrer
E morrer para aliviar
Com o ferir, o doer.
Fugir e não cessar.

Bastei-me de mentiras
Perdi tudo que tinha
Morri de amores não vividos
Amei os sonhos feridos.

Mas basta olhar de novo
Sem os olhos da maldade
Basta mostrar ao povo
O que há além da vaidade.

Sunday, July 16, 2006

Conto do casamento

E como se fosse rotina, caminhou. E olhando para os lados, percebeu. Aquele não era seu lugar. Piscou os olhos ao tentar esconder as lágrimas, pressionou os lábios para sufocar o grito. Não deveria ser assim...
Em princípio, era o sonho, aquilo que sempre quis. Planejou-o desde sempre e contou os dias para o evento. Amou incondicionalmente e entregou-se por completo. Vivia entre beijos, carícias, gemidos. Aquele fogo que chegava a doer deixava-a louca. E Madeleine gostava de sentir-se assim.
Em um momento pisou em falso, não estava acostumada com o salto. E, pela primeira vez, o coração pareceu responder, disparou. Arriscou olhar para a direita, um flash a cegou a vista. Só então percebeu ser o centro dos olhares. Passara toda a vida evitando chamar a atenção. Nada de apresentar trabalhos ou arriscar-se em karaokês, preferia ser a expectadora, aquela em que ninguém reparava. Era feliz dessa forma, ou, pelo menos, pensava ser. Pelas amigas, era sempre eleita a “confidente”, por seu jeito quieto e sua discrição impecável; os pais orgulhavam-se da filha que terminou o colegial com notas brilhantes e que, diferente dos irmãos, nunca se meteu em qualquer confusão. Ela nunca havia decepcionado ninguém. Isso até agora.
Começou a reparar na respiração. Não estava ofegante como na véspera, pelo contrário, seu corpo parecia relaxar-se. Dava um passo, outro; porém não sorria. Seu olhar de faquir passou a incomodar os convidados. O tapete vermelho começou a acabar e, antes que pensasse nele, o viu. Parecia nervoso, porém piscou-lhe. Madeleine não tinha dúvidas de que Marcelo era seu grande amor. Sentia-se completa em sua companhia, gostava de sentar em seu colo e rir e beijar e explodir. Amava quando ele mexia em seu cabelo e chamava-a de princesa. Ele era seu príncipe, sua vida, sua razão e o coração. Alta entropia nos pensamentos da noiva. Nos passos finais, pensava nos dois anos de namoro e um de noivado. Havia sido bom, Madeleine sempre quisera casar-se, mas, de repente, enxergou o futuro como um grande tédio. Amor, marido, filhos, família. Tédio. Ela só tinha vinte e poucos e nenhuma experiência de vida. Três namoros sérios e, agora, um casamento. Um curso superior e nenhum emprego. Pronúncia perfeita no inglês e sua lua-de-mel seria no Nordeste. Na prateleira, cinqüenta livros de aventura e uma vidinha padrão. Madeleine quis mais.
Na hora H, olhos nos olhos, sorriso morno. Adeus. Marcelo a amaria para sempre, e como. Mas a noiva não estava presente em alma. Adeus. Marcelo precisava dela, mas... Adeus. As flores foram ao chão. Baque para todos, o inesperado aconteceu. Mais centro das atenções que isso, impossível. Madeleine era a vergonha da família, a decepção dos amigos, a tristeza do noivo. Ela disse adeus, sorriu e sentiu-se bem. Encontrou a verdadeira felicidade e ignorou a sociedade. Fugiu do combinado para iniciar uma vida. Trocou a princesa pela bruxa e ignorou os conselhos da fada-madrinha. Saiu do altar com tal velocidade que parecia estar voando em uma vassoura, tropeçou no salto e largou o sapatinho. Mas este nunca mais lhe serviria, pois os pés haviam inchado.Descalça, com o penteado desmoronando-se, foi para a rua. Não olhou para trás, o que havia deixado não lhe seria mais importante. Continuava a amar Marcelo e se alimentaria de lembranças, não queria estragar tudo. Pegou um táxi, seu destino era contra o vento. Só queria ir além, surpreender. Conseguiu. Nunca mais viu a família, os antigos amigos, porém continuou amando-os com a mesma intensidade. Percebeu que há inúmeras formas de amar e de reagir ao amor, mas que seu principal sentimento deveria ser por si própria. A vida era linda e a liberdade, o único caminho.

Amo

Eu revelo amor
Sem desvelar.
Tão rápido,
Imperceptível.

Eu tenho amor,
Tenho amor.

Tenho, tenho mesmo,
Mas o guardo para não doer
E dói tão forte
Sem ninguém perceber.

Sim, eu tenho amor!
E quero amar
Como me amam
Mas sou dura
Insólita
Indócil
Sem ternura.

Não, eu não sou assim,
Tão fria e
Tão morta.
Eu vivo,
Eu sinto,
Eu amo,
Eu choro.